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Balé da Cidade de São Paulo une dança e poesia em série de quatro episódios com a participação de escritores da periferia que retratam suas realidades

Projeto Dançando Palavras coloca em sintonia bailarinos da companhia do Municipal e artistas emergentes da palavra, como poetas e slammer, em vídeos que abordam racismo, imigração e identidade de gênero; conteúdo estará disponível no YouTube do Theatro, que também transmite um bate-papo com os quatro autores

Nesta semana, de 8 a 11 de setembro, o Theatro Municipal de São Paulo terá uma programação dedicada à dança e a poesia no ambiente digital. Trata-se de um projeto do Balé da Cidade de São Paulo que propõe o diálogo do corpo em movimento com palavras que descrevem situações vividas por uma parcela da sociedade. Em Dançando Palavras, bailarinos, poetas e músicos do Theatro Municipal trabalham juntos. Ismael Ivo, diretor do Balé da Cidade, assina as coreografias. Será publicado um vídeo por dia, entre terça e sexta-feira, sempre às 18h

Em busca de autores ligados a comunidades distantes da região central de São Paulo, Ismael selecionou, a partir de uma ampla lista, quatro poemas com temas bem diversos, de autores ainda não conhecidos do grande público. “Eles representam a diversidade de vozes da cultura de São Paulo”, destaca o diretor do Balé da Cidade. A convite do Theatro Municipal, eles declamam seus textos enquanto bailarinos interpretam a coreografia assinada por Ivo. As obras dos artistas da palavra são carregadas de sentimento de pertencimento, de olhar para o seu interior e de como o mundo se comporta diante deles.

A edição dos episódios ficou a cargo de integrantes do Gleba do Pêssego, coletivo criativo com foco no audiovisual formado por realizadores LGBTs vindos de periferias da Grande São Paulo. Tatiane Ursulino, Leo Domingos e Guilherme Candido aceitaram o convite do Municipal para imprimir ao projeto uma estética urbana, contemporânea e diversa. A iniciativa reforça o papel do Theatro em dar voz e visibilidade a esses artistas.

Na terça, 8, abrindo a série, tem o Contra indicação do escritor, poeta e slammer Cleyton Mendes, um andarilho da zona leste, mas que também é do mundo. Neste poema, ele faz uso da palavra como uma forte ferramenta de conscientização da população negra para alcançar sua liberdade de pensamento. Cleyton aborda a sexualidade e a afetividade masculinas na periferia. Um texto ritmado sobre um poeta negro com um livro na mão. No vídeo, os bailarinos são boxeadores, em uma referência à luta contra o racismo e o preconceito. Na trilha sonora, músicos de percussão da Orquestra Sinfônica Municipal reproduzem o som dos tambores que anunciam que o futuro está próximo. Integrante do movimento hip hop e ativista cultural, Cleyton traz em sua obra, além de muita re-existência, uma mistura de ancestralidade, boemia, reflexão, saudade e amor pelo faz.

No dia seguinte, 9 de setembro, a arte educadora colombiana Daniela Hernandez Solano, refugiada política que se estabeleceu em São Paulo assina o poema Imaginárias. Ela fala das novas fronteiras encontradas por uma imigrante na grande metrópole que é São Paulo. A mudança na vida das pessoas a partir do momento em que as fronteiras territoriais são impostas pelos colonizadores. Essas linhas que dividem terras causando guerras e feridas foram adquirindo outras formas, passando a dividir também as pessoas de seus grupos de convívio social.

Quinta-feira, 10, tem obra da transexual Abigail Campos Leal, uma acadêmica com doutorado em Filosofia pela PUC-SP que trata de racismo. Na poesia Águas, escrita neste período de isolamento social, a água em seus diferentes estados físicos é o fio condutor, que vai se transformando ao decorrer dos versos como se traduzissem os sentimentos da autora a cada ato da poesia. No vídeo, com trilha sonora executada pela própria Abigail com contribuição de Betina Stegman, violinista do Quarteto de Cordas da Cidade, bailarinos com figurinos minimalistas e corpos molhados, em cenário que traz a sensação de respiro. Abigail é integrante do movimento paulistano SlamMarginália, uma competição de poesia falada feita por e para pessoas trans.

E fechando o projeto Dançando Palavras, na sexta, 11, o Balé da Cidade interpreta obra da poetisa e idealizadora do coletivo de slam Sarau das Pretas, Débora Garcia. Em seu Modernistas do Novo Tempo, ela trata a arte como recurso utilizado pelas pessoas negras como forma de afirmação no mundo, reconhecimento este que vem encontrando dificuldades. Neste dia, o Theatro Municipal também reúne os quatro autores para um bate-papo em seu canal no YouTube. Débora é formada em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), autora do livro Coroações – Aurora de poemas e em março de 2019 se apresentou no evento de abertura da Praça das Artes. Em Dançando Palavras, auxiliou Ismael na busca e curadoria dos poemas.

Série Dançando Palavras

8/9, terça: Contra indicação, de Clayton Mendes

9/9, quarta: Imaginárias, de Daniela Hernandez Solano

10/9, quinta: Águas, Abgail Campos Leal

11/9, sexta: Modernistas do Novo Tempo, de Débora Garcia – neste dia, o YouTube do Theatro Municipal também traz um bate-papo ao vivo com os autores.

+ Balé da Cidade na quarentana

Desde que o Theatro Municipal suspendeu a sua programação por conta da pandemia, os bailarinos do Balé da Cidade de São Paulo, em especial, vêm mantendo sua rotina de ensaios e preparação, mas em suas casas. O atual momento, de restrição de convívio social, abre espaço para criação de performances espontâneas elaboradas pelos próprios bailarinos e estes conteúdos estão publicados nas redes sociais do Theatro.

Outra ação realizada pelo Balé da Cidade de São Paulo neste período contou com a parceria da São Paulo Companhia de Dança em ação digital inédita. De casa, os bailarinos criaram coreografias curtas e registaram em vídeo para a campanha “Corpus: Alma e Esperança”. A série vem sendo transmitida na programação da TV Cultura e nas redes sociais das duas instituições.

Quem acessar o YouTube do Theatro Municipal também pode conferir dois espetáculos do Balé da Cidade de São Paulo apresentados no palco do Municipal: A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, e A Biblioteca de Babel, inspirado no conto homônimo do escritor argentino Jorge Luis Borges.

+ Municipal Online

Enquanto o Theatro Municipal de São Paulo segue fechado por determinação da prefeitura para evitar a propagação do novo coronavírus, o território digital é o novo palco. Quem acessa as redes sociais do Theatro pode conferir apresentações de performances de câmara, a íntegra de espetáculos apresentados no palco do Municipal e ainda aproveitar os cursos livres, as gravações solo em versões reduzidas para piano e acompanhar as lives com profissionais do Theatro. Tudo isso com acesso gratuito e irrestrito nas páginas do Theatro no Instagram, Facebook ou YouTube.

No canal de vídeos, em especial, o espectador pode assistir às óperas Rigoletto, O Barbeiro de Sevilha, O Cavaleiro da Rosa e A Viúva Alegre, ver ou rever os espetáculos do Balé da Cidade e curtir dezenas de concertos sinfônicos como a série Beethoven Total, com a Orquestra Sinfônica Municipal interpretando as nove sinfonias do compositor alemão. E o último episódio do Podcast Theatro Municipal está no ar: a vida do compositor Carlos Gomes. Muito reconhecido por sua ópera “O Guarani”, tema do episódio anterior, contudo sua vida e obra vão muito além disso. A apresentadora Ligiana Costa conta detalhes desta história. Participam da conversa, a diretora e dramaturga Maria Adelaide Amaral, que prepara uma novela sobre a vida do compositor, com direção musical do segundo convidado do podcast, o maestro Júlio Medaglia. João Luiz Sampaio, jornalista que acaba de encerrar uma biografia sobre Gomes, ainda não lançada, completa a lista.

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